Nem 8 nem 80. Para não matar a criatividade e a inovação Artigos, Inovação

Uma das minhas preocupações para explicar os princípios da física quântica aplicados ao nosso cotidiano é trazer exemplos práticos para que se tenha uma melhor compreensão sobre esta ciência chamada a “física das possibilidades”.

Utilizei, na minha última palestra, uma simples pergunta dirigida aos presentes:

– Que tipo de transporte vocês usariam para descer a serra indo de São Paulo para Santos?

E as respostas foram as mais variadas: carro (inclui o táxi ou ir de carona), moto, ônibus, caminhão, bicicleta, avião, helicóptero. Também foram citados o skate, carrinho de rolimã, patim, patinete, cavalo, carroça ou, simplesmente, ir a pé.

O número de alternativas já me surpreendeu pelo poder de se escolher algum deles. Aliás, o Homem é o único animal que tem este poder.

Mas a minha curiosidade me levou mais além. E, pesquisando sobre os meios de transporte no Brasil, ainda encontrei a liteira, a cadeirinha e a carruagem, meios de transporte empregados no século XIX.

Encontrei também que, para descer a serra, poderia usar outros meios de transporte empregados em outros países, como o riquixá chinês ou o tuctuc indiano.

E, por incrível que possa parecer, ainda podemos descer a serra empregando outros meios que servem de brincadeira para crianças, como o sollowheel, o airboard, o segway e o walkcar.

Mas o poder de se escolher qualquer meio de transporte não parou por aí­. Faltaram as minhas opções. E sugeri mais duas; descer a serra plantando bananeira ou ir como um homem-foguete.

Esta grande variedade de meios de transporte nos mostra o poder que o Homem tem de fazer escolhas, ou seja, exercer seu livre arbítrio sob os auspícios de uma vontade livre, consciente e sem vícios e que irá determinar a força e o valor dos resultados a serem alcançados.

Nem onda, nem partícula. Ambos.

Um princípio quântico afirma que a luz tem propriedades de partículas e também de ondas, podendo ser as duas coisas.

Trazido ao nosso exemplo, isto significa que, ao tomar posição sobre qual meio de transporte escolher, automaticamente estou me “prendendo” a ela, de tal modo que a minha decisão “anule” as outras alternativas e eu tenha a escolhida como uma “verdade absoluta”. Exemplo: ou é o trem ou não é nenhum outro meio de transporte.

A isto se dá o nome de pensamento dualista. É o tipo de pensamento baseado no “é isto ou aquilo”; é “bom ou mal”; é “ou você pensa igual a mim ou você é meu inimigo”. Coisas do tipo.

Quando se descamba para atitudes deste tipo, dá-se um tiro fatal na criatividade e na inovação.

Cada um de nós tem seus modelos mentais baseados em uma série de coisas, como crenças, valores, princípios, e que os fazem pensar “dentro da sua própria caixa”. E sair desta “caixa” pode ser algo penoso e difícil visto que trocar a certeza por uma incerteza pode trazer medo e insegurança.

E quando isto é levado para dentro das organizações, com o intuito de se fazer alguma mudança para acompanhar as mudanças que estão ocorrendo em todas as áreas, inclusive a dos negócios, a coisa pode ser ainda pior, como descreve Harris:

  • os indivíduos estão amarrados a uma experiência passada onde os líderes a consideram como formativa;
  • eles estão associados a alguém de poder ou prestígio na organização e que não é desafiada sem consequências;
  • eles protegem alguma ideia ou crença considerada especial ou sagrada na organização, mesmo que sejam mantidas em uma situação distante de sua utilidade;
  • o custo presumido de se pensar de maneira diferente é proibitivo (deste modo, o custo da oportunidade de se pensar de maneira diferente ou o custo catastrófico de se apegar a algo que poderá ser esmagado pelas forças mais poderosas no mercado ou o ambiente comercial não é levado em consideração).

Deve-se ter a consciência de que tudo muda a todo instante. A única coisa imutável é a mudança. E qualquer mudança deve ser encarada como uma nova possibilidade (“onda ou partícula????”) para se criar algo novo ou inovar melhorando o que já existe.

Por isso, um propósito, seja ele qual for, deverá ser sempre específico, mas, ao mesmo tempo, flexível, “aberto” e multifacetado, o que faz dele um processo e não um fim em si mesmo.

Quando se toma uma posição de um dos lados de um processo dualista, alguns comportamentos são previsíveis e fazem com que tendamos para um dos dois lados. Harris assim os descreve:

  • o desejo de acelerar o trabalho como um indicador da eficiência;
  • a noção equivocada de que simplesmente porque os pensamentos são lógicos, eles tem uma grande probabilidade de ser verdadeiros;
  • a minimização da mudança ou o fato de se negligencia-la, e a natureza mutável das suposições sobre as quais um argumento é baseado.

Voltando ao início deste texto e afirmando que “a minha escolha é que é a certa”, viola-se, automaticamente, o princípio da dualidade partícula-onda. É como se dividir algo em dois, mesmo sabendo que várias outras alternativas podem existir.

Olhe para si e observe-se. Estarei sempre procurando o melhor para mim, para minha empresa, para meus amigos ou para a minha família? Será que tendo um pensamento onde “estou sempre certo” não estou, em realidade, me fechando para ter pensamentos melhores, mais criativos e mais inovadores?

Pensamentos dualistas podem nos deixar cegos para não percebermos que situações novas podem nos levar a novos patamares, sejam pessoais, intelectuais, financeiros, profissionais, etc.

Aprenda a reservar um tempo para ver onde você pode melhorar; em que ocasiões você pode ser partícula e em que ocasiões você pode ser onda.

Ah! E se nas próximas férias você for para o litoral, quem sabe você escolhe ir de asa delta. Por que não?

Luiz Roberto Fava

Autor: Autor: Luiz Roberto Fava

Especialista em Endodontia, palestrante de Qualidade de Vida Integral.

Nem 8 nem 80. Para não matar a criatividade e a inovação
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