C.R.E.P.T. P – de Perdão Artigos, Crescimento Pessoal

O significado de perdão que encontramos no dicionário é: desculpa, remissão das faltas, indulto, enquanto o verbo perdoar significa desculpar, absolver, remitir (pena, culpa, dívida).

Se vivêssemos em um mundo utopicamente ideal, nossos problemas e nossos conflitos nem existiriam ou seriam encarados como algo positivo para melhorarmos nossos resultados e nossas relações, usando a criatividade, o respeito e a integridade. Se…

Infelizmente a realidade é outra. Estamos sujeitos a enfrentar diferentes tipos de conflitos todos os dias que podem gerar diferentes tipos de sentimentos como mágoa, ofensa, ressentimento, raiva, ódio, ira, rancor ou vingança: ou, então, um sentimento de fuga, ou seja, abandonar a causa (problema) que gerou estes sentimentos.

E o pior é que nada disso resolve, nada disso contribui para que a pessoa resolva esta situação enquanto estes sentimentos negativos estiverem presentes.

Em vez de ficarmos alimentando estes tipos de sentimentos, que tal pensar em algo que realmente contribua para a solução do problema? Esta outra opção é o perdão.

Robin Casaijian afirma: “por maio do perdão a pessoa tem a possibilidade de agir com a valentia de um coração pacífico”.

Fredy Kofman diz que “perdoar não é fácil. Requer um nível profundo de maturidade e autoconhecimento. O perdão exige um compromisso radical com a responsabilidade e a liberdade essencial do ser humano e uma confiança absoluta na capacidade de aprender a crescer mediante todas as experiências, tanto as deslumbrantes quanto as sombrias”.

Este mesma autor descreve o que não é perdão:

  • perdoar não é absolver um comportamento negativo e inapropriado, seja o nosso ou o do outro. Perdoar não significa aprovar ou desculpar o comportamento que causou o sofrimento. Não exclui empreender ações para modificar a situação, proteger-se ou se ressarcir do dano. A pessoa pode perdoar o devedor impontual, mas abrir um processo para conseguir a cobrança;
  • perdoar não é fingir que tudo está bem quando a pessoa sente que não é este o caso. Às vezes é enganosa a situação entre o perdão autêntico e a negação repressiva da irritação e da dor. Só podemos dar um perdão genuíno se prestarmos atenção às nossas emoções. A mascar de um sorriso e o “não se preocupe, está tudo bem” são a antítese do perdão;
  • perdoar não é assumir uma atitude de superioridade ou santidade. A pessoa que perdoa o outro. ou por se achar melhor que ele ou porque se compadece da estupidez dele, confunde perdão com arrogância;
  • perdoar não significa que a pessoa possa, ou deva, mudar seu comportamento. Você poderá perdoar um empregado que não está fazendo satisfatoriamente seu trabalho e, ao mesmo tempo, despedi-lo;
  • perdoar não requer que você se comunique diretamente com as pessoas a quem prejudicou. Você não precisa ir até o outro para lhe declarar pessoalmente: “Eu perdôo você”. Contudo, esta ação pode fazer parte do processo;
  • perdoar não é fazer um favor ao outro. A pessoa não está perdoando por generosidade ou caridade; ela o faz como um ato de integridade para consigo mesma, como uma maneira de encerrar um passado doloroso para que este não condicione o futuro;
  • perdoar não é abandonar o direito de reclamar uma indenização. A pessoa pode perdoar e, ao mesmo tempo, exigir reparações. Perdoar não significa que a pessoa renuncie ao seu direito de exigir que o dano seja reparado;
  • perdoar não é esquecer. O esquecimento impede que a pessoa seja capaz de evitar ou, pelo menos, administrar melhor situações similares no futuro. O perdão é peça-chave do processo de aprendizado;
  • perdoar não é exigir que a pessoa continue a manter o vínculo com o outro. Perdoar não equivale a reatar relações. A pessoa poderá perdoar o ex-sócio, por exemplo, sem ter a menor intenção de fazer outros negócios com ele;
  • perdoar não é um contrato que exige contraprestação. O verdadeiro perdão não está condicionado à mudanças de comportamento da pessoa a quem perdoamos.

O perdão condicional não funciona. Quando o perdão depende das ações do outro, você dá a esse outro o poder de tirar você do seu ressentimento (ou não). Além disso, o perdão “contratual” comunica sutilmente ao outro que você não está disposto a aceitá-lo tal como ele é, e isso dificulta a mudança dele.

Como afirma Patrick Miller: “pareceria muito mais fácil perdoar alguém se este alguém desse sinais de mudança. O paradoxo é que é impossível que vejamos sinais de mudança nos outros enquanto não os tivermos perdoado”.

  • o perdão não é um premio que você da ao outro quando ele demonstra que o “merece”. Tampouco é um incentivo para que o outro se comporte do jeito que você quer. O verdadeiro perdão nada tem a ver com o merecimento do outro.

Miller sugere que “quando você se pergunta se alguém merece o seu perdão, você está formulando a pergunta errada. Em vez disso, você deveria se perguntar se você próprio merece (e escolher) ser alguém que perdoa. Mais do que uma recompensa ao perdoado, o perdão é uma graça autoconferida por aquele que perdoa.

Na matéria publicada sobre o perdão na revista Veja, lê-se que “o sentido moderno do perdão surgiu na revolução do pensamento ético liderado por Immanuel Kant, que insistia na autonomia moral em relação a Deus. Isto criou a condição para um entendimento secular de perdão entre as pessoas, no qual o remorso e a mudança interior do agressor deveriam ser julgados não por Deus, mas pela pessoa ofendida, que faria o esforço quase sobre-humano de ver o outro como merecedora do perdão. Já, para quem se arrepende, ele o faz não por ser virtuoso, mas porque a natureza humana é capaz de mudar”.

E, em um contexto mais contemporâneo, o que seria o perdão?

Voltamos a Fredy Kofman, que ensina: “perdoar é a escolha consciente de abandonar o ressentimento. É a decisão de integrar a dor do passado com aprendizado para o futuro. É o compromisso de viver 100% no presente, com a mente e o coração abertos, livre da inércia da irritação não trabalhada”.

E segue o autor:

  • o perdão é uma decisão que nos permite ver além dos limites expostos pela personalidade do outro (e pela nossa). É a decisão que nos possibilita transcender os medos, as mesquinharias, as neuroses e os erros, que nos aproxima da essência mais pura do ser humano, uma essência não condicionada pela história pessoal, uma essência com potencial ilimitado;
  • o perdão é um processo, não um fato isolado. A visão das pessoas geralmente está matizada por juízos e percepções do passado que se projetam sobre o presente. O perdão é uma prática destinada a viver cada momento independentemente dos velhos juízos e opiniões, que nos permite contemplar o presente com frescor, clareza e sem medo. O processo de perdoar dissolve, de modo contínuo, as idéias que embotam nossa capacidade de estar totalmente conscientes;
  • o perdão é uma maneira de viver com protagonismo. Ao se tornar responsável pelos seus sentimentos, independentemente das ações do outro, a pessoa deixa de ser uma vítima indefesa e se transforma na protagonista, co-criador da sua realidade. Perdoar é trocar as atitudes reativas por atitudes proativas, tornando-se mais consciente do próprio poder de crescer diante de qualquer circunstância;
  • o perdão é uma prática. Ver as situações de modo diferente requer uma decisão consciente, um desejo e um compromisso inquebrantável consigo mesmo. Como em qualquer outra prática, o desenvolvimento desta habilidade exige disciplina, exercício, tempo e dedicação. Para alcançar mestria, naturalidade e graça, o perdão requer exercício permanente;
  • o perdão é a aceitação incondicional do outro. Aceitar o outro, na verdade, é diferente de convalidar seu comportamento. Perdoar o outro não significa aprovar ou desculpar suas ações prejudiciais. No espírito do perdão, você pode aceitar o outro enquanto legítimo outro que tem comportamentos ofensivos (para você). Você pode perdoar o outro e, ao mesmo tempo, tomar medidas para impedir que as ações dele continuem prejudicando você;
  • o perdão é um compromisso com a responsabilidade e a liberdade. A responsabilidade de se manter consciente diante dos desafios da vida e trabalhar os pensamentos e sentimentos que surgirem, e a liberdade de ultrapassar os condicionamentos externos e escolher de que modo interpretar as circunstâncias, com a mente e o coração abertos”.

Portanto, o perdão e o ato de perdoar estão dentro de cada um de nós, na nossa mente e na nossa alma; é algo que, quando concedido, vem do coração, com sinceridade, singeleza e generosidade; é algo que traz benefícios para o corpo, como menos estresse, dores no peito, insônia, perda de apetite, e para a mente, como as emoções negativas já descritas. Perdoar significa diminuir tudo isso para se buscar a paz, tanto interior, como no relacionamento com o outro.

Já o Prof. Fred Luskin, autor de O poder do perdão, descreve os nove passos do perdão:

– Saiba exatamente como se sente sobre o que ocorreu e seja capaz de expressar o que há de errado na situação. Então, relate a sua experiência a umas duas pessoas de confiança.

– Comprometa-se consigo mesmo a fazer o que for preciso para se sentir melhor. O ato de perdoar é para você e ninguém mais. Ninguém precisa saber sua decisão.

– Entenda seu objetivo. Perdão não significa necessariamente conciliar-se com a pessoa que o perturbou, nem se tornar cúmplice dela. O que você procura é a paz.

– Tenha uma perspectiva correta dos acontecimentos. Reconheça que o seu aborrecimento vem dos sentimentos negativos e desconforto físico do que você sofre agora, e não aquilo que o ofendeu ou agrediu dois minutos – ou dez anos – atrás.

– No momento em que você se sentir aflito, pratique técnicas de controle do estresse para atenuar seus efeitos.

– Desista de esperar, de outras pessoas ou de sua vida, coisas que elas não escolheram para dar a você. Reconheça as “regras não cobráveis” que você tem para sua saúde ou para o comportamento seu e dos outros. Lembre a si mesmo que você pode esperar saúde, amizade e prosperidade e se esforçar para consegui-las. Porém você sofrerá se exigir que essas coisas aconteçam quando você não tem o poder de fazêlas acontecer.

– Coloque sua energia em tentar alcançar seus objetivos positivos por um meio que não seja pela experiência que o feriu. Em vez de reprisar novamente sua mágoa, procure outros caminhos para seu fim.

– Lembre-se de que uma vida bem vivida é a sua melhor vingança. Em vês de concentrar nas suas mágoas – o que daria poder sobre você e a pessoa que o magoou – aprenda a buscar o amor, a beleza e a bondade ao seu redor.

– Modifique a sua história de ressentimento de forma que ela o lembre da escolha heróica que é perdoar. Passe de vítima a herói na história que você quer contar.

E como exercitar o perdão? O Dr. Martin Seligman sugere quatro pontos:

  1. pense objetivamente na ofensa sofrida, mas não pense na pessoa como alguém mau;
  2. respire profunda e lentamente para se acalmar enquanto visualize a cena;
  3. coloque-se no lugar da pessoa que o ofendeu. Procure entender sob o ponto de vista dela porque fez algo que o ofendeu; e,
  4. seja altruísta. Pense que um dia você foi perdoado. E agora você terá compaixão pelo outro, porque ele não deveria estar bem quando o ofendeu.

Este exercício exige duas atitudes: ter a disposição e a coragem para se livrar dos sentimentos negativos e assumir que o perdão deve ser uma escolha.

Deixo agora, uma frade do já citado autor Patrick Miller, para sua reflexão: “eu achava que o perdão era um gesto pelo qual a gente poderia superar alguma estupidez ou maldade; que, além disso, permitiria experimentar uma efêmera sensação de afeto por toda a humanidade. Agora compreendo que o perdão é uma maneira radical de viver, uma prática que desafia as crenças mais comuns das pessoas”.

O perdão, além de aumentar nosso aprendizado, é uma potente ferramenta para o crescimento do ser humano.

Luiz Roberto Fava

Autor: Autor: Luiz Roberto Fava

Especialista em Endodontia, palestrante de Qualidade de Vida Integral.

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