Mulher, trabalho e estresse Artigos, Estresse, Qualidade de Vida

A realidade esta aí para ser vista: cada vez mais as mulheres estão ocupando espaços no mercado em vagas que eram exclusivamente do sexo masculino e acumulando muito mais responsabilidades independentemente do cargo ou da função que ocupam.

A segunda realidade do mundo feminino no trabalho é que as mulheres estão mais estressadas que os homens. A pesquisa realizada pelo International Stress Management Association (ISMA-BR) mostrou que o estresse atinge 94,3% das profissionais. Outro estudo, realizado pelo instituto americano Roger Starch Worldwide mostrou que as mulheres são mais estressadas que os homens em 20%.

Hoje a Ciência, tanto a Medicina como a Psicologia, procuram estudar os porquês desta diferença, sendo que alguns estudos já começam a desvendar este enigma.

Um deles, realizado pela Universidade da Pensilvânia, mostrou que as regiões cerebrais, ativadas por um agente estressor, são diferentes nos homens e nas mulheres.

Nos homens, a tensão ativou a região do córtex pré-frontal (razão, lógica), enquanto, nas mulheres, a região ativada foi o sistema límbico (emoções). Isto pode explicar porque a resposta feminina é mais carregada de emoções do que pelo uso da razão.

Isto pode ter uma origem cultural advinda da época onde se viviam em cavernas. O homem saía para caçar e as mulheres cuidavam dos filhos. Se houvesse uma ameaça ou perigo iminente, os homens eram obrigados a reagir rapidamente e escolher entre lutar ou fugir. Já as mulheres tinham que ficar atentas aos filhos e estarem prontas para protegê-los do perigo.

Infelizmente este tipo de comportamento ainda é visto em alguns lugares. O homem, provedor, sai para trabalhar enquanto a mulher faz o trabalho doméstico e cuida da prole. Culturalmente, o homem não está “nem aí” para quem vai fazer o trabalho da casa.

Quantos casais você conhece onde a mulher prepara a refeição ou cuida da roupa enquanto o homem assiste o jogo de futebol pela televisão?

Outros aspectos, relacionados a estas diferenças, tem sido relatados na literatura:

  • existe um maior número de conexões entre os dois hemisférios cerebrais nas mulheres, o que diminui a chance delas se desligarem dos problemas com mais facilidade;
  • nos homens, a região cerebral ligada à percepção do tempo e velocidade é mais desenvolvida, razão pela qual eles pressionam mais as mulheres para chegar rapidamente ao foco do assunto;
  • a mulher tende a interpretar os estímulos como mais perigosos, uma das razões que as tornam mais estressadas que os homens.

Mas, além destas pesquisas, a mulher tem outras causas para o seu estresse:

  • trabalhar tão BM quanto o homem sem abrir mão dos outros papéis que desempenha;
  • ter uma jornada dupla (e até tripla) de trabalho, o que se traduz por uma enorme sobrecarga que pode ter impacto direto no seu desempenho profissional;
  • dividir seu tempo entre o trabalho e ser mãe ou cuidadora de pais idosos. Uma das características femininas é o zelo pelo outro.
  • falta de reconhecimento, o que pode levar a mulher a ter 60% mais probabilidade em desenvolver doenças;
  • maior dificuldade em dizer NÃO, o que faz com que acumule mais responsabilidades para demonstrar que também são capazes e competentes;
  • além das demandas profissionais e familiares, também estão mais sujeitas às demandas estéticas e sociais. Acreditam que tem que possuir um corpo perfeito, estar sempre bem vestida, bonita, maquilada, bem-humorada e lutar contra a idade, as rugas, a celulite, as estrias, etc.

São de Regina Fabrini as seguintes palavras: “é através do olhar masculino que elas se reconhecem, e aí sempre supõem que só poderão ser amadas e desejadas se corresponderem ao ideal de beleza desse outro lado que a olha. Cegam-se então a si mesmas, mirando no horizonte uma imagem estática e impossível de perfeição, através da idéia de um corpo irrepreensível. Para os homens, tomar posse de uma mulher bonita e desejável é inegável símbolo de poder”.

O Dr. Tomaz Tanaka afirma que são muitas as conseqüências físicas e mentais que as exigências da vida moderna causam nas mulheres. São elas: cansaço físico e mental, nervosismo, irritabilidade, ansiedade, insônia ou sonolência excessiva, dificuldade de concentração, falta de memória, tristeza, indecisão, baixa auto-estima, sentimento de solidão, sentimento de raiva, emotividade, choro fácil, pesadelos, depressão, isolamento, perda ou excesso de apetite, pânico, podendo apresentar também alterações de comportamento como alcoolismo, consumo de drogas ilícitas, uso de calmantes e ansiolíticos, comportamento autodestrutivo e robotização do comportamento.

Segue o Dr. Tanaka afirmando que:

  • as conseqüências para o sistema cardiorrespiratório consistem na elevação da pressão arterial, palpitações, respiração ansiosa e extremidades frias e suadas:
  • as conseqüências para o sistema gastrointestinal podem se traduzir em alterações como má digestão, gastrite, úlcera, colite e até diarréia crônica;
  • outras conseqüências incluem o comprometimento dos órgãos sexuais (podendo levar à impotência e à frigidez), osteoporose, obesidade, diabetes e até câncer, devido ao comprometimento do sistema imunológico.

A socióloga Leila A. P. Sanchez é de opinião que a mulher precisa organizar sua vida como um todo, de uma forma global, para alcançar o sucesso, enquanto os homens se preocupam apenas com o sucesso profissional e financeiro.

Mas, mesmo sendo mais estressada que os homens, o que faz com que as mulheres vivam mais que eles?

Para Ana Maria Rossi, a resposta está na facilidade em falar o que sentem, o que as ajuda a entender melhor suas emoções e buscar ajuda tão logo necessitam. Isto as faz viver mais e melhor.

Como homens e mulheres reagem de forma diferente aos agentes estressores, não existe mais razão para que profissionais masculinos e femininos sejam tratados de forma igual e qualitativa dentro do ambiente de trabalho.

Já é sabido que o ambiente de trabalho é uma inesgotável fonte de estresse. Suas causas são inúmeras e variadas e poderão ser vistas no meu texto Sustentabilidade social e estresse corporativo – Causas (http://sustentabilidade.ogerente.com.br/causas-estresse-corporativo/)

Um outro dado importante vem da pesquisa da Economist Intelligence Unit (2010) sobre os maiores desafios do RH na década e publicadas na revista Você RH (mar.abr., 2011):

  • reter e recompensar as melhores pessoas – 49%;
  • criar uma cultura corporativa capaz de atrair os melhores profissionais – 43%;
  • encontrar gente com as competências técnicas necessárias – 39%;
  • contratar funcionários certos nos mercados onde mantém operação – 32%; e,
  • desenvolver sucessores dos negócios – 28%.

Se a maior preocupação reside nos dois primeiros itens, as empresas da Era do Conhecimento e, futuramente, da Era da Sabedoria, elas devem investir em ações para reduzir o estresse entre seus colaboradores a fim de obter melhores resultados. A humanização do ambiente de trabalho aumenta a auto-estima dos colaboradores e faz com que se sintam mais saudáveis, motivados, engajados e produtivos.

Investir no bem-estar e na felicidade de seus funcionários deve ter o mesmo grau de importância, quiçá maior, quando comparado com as ações que a empresa gera visando a aquisição do conhecimento e desenvolvimento de novas competências de seus colaboradores através de treinamentos, cursos, workshops, etc.

E isto deve ser feito levando em consideração as diferenças entre eles e elas. E esta diferença deve ser vista como fator complementar e não como fator de exclusão, considerando-se as diferenças de respostas entre os dois sexos.

Por isso, toda e qualquer ação de melhoria do ambiente de trabalho focada no bem-estar, felicidade e redução do estresse entre os colaboradores deve levar em conta estas diferenças.

Muitas ações podem ser desenvolvidas na própria empresa e, caso isto não seja possível, através de convênios e parcerias.

E se elas forem o foco destas ações, que tal pensar em algumas das sugestões abaixo:

  • serviços de salão de beleza (cabeleireiro, manicure, pedicuro e maquiagem);
  • ginástica localizada para eliminar aquelas “gordurinhas”;
  • auxílio financeiro para a terceirização do serviço doméstico, como diaristas, lavadeiras e passadeiras de roupa, babás para os filhos, etc.;
  • cirurgia plástica estética

É sabido que os planos de saúde não cobrem os custos com cirurgias plásticas estáticas. Entretanto, muitas empresas já estão fazendo contratos ou convênios diretamente com clínicas ou cirurgiões plásticos para proporcionar a elas (e a eles também, por que não?);

  • creche para pais idosos

Muitas mulheres podem ter pais idosos e, como uma das características femininas é ser cuidadora, elas não podem ter um local apropriado para deixá-los durante sua jornada de trabalho. Esta ação pode ser de um valor inestimável para elas porque terão a certeza que seus pais estarão sendo cuidados;

  • desenvolver a cultura do home office

Trabalhar em casa, desde que haja planejamento e condições para tal, pode se constituir em uma alternativa válida porque diminuirá tanto as horas gastas no trânsito, principalmente o das grandes cidades, assim como o estresse por ele gerado.

  • para as colaboradoras que já são mamães, algumas ações podem incluir a permissão para levar o filho ao médico, comparecer às festas da escola dos filhos e, no dia do aniversário do filho, trabalhar apenas meio período.

E, que tal, também desenvolver ações que, além de diminuir o estresse, também ajudam a melhorar algumas habilidades?

Sabe-se que os esportes coletivos ajudam a desenvolver o trabalho em equipe, aumentando a responsabilidade para com o outro. Então, que tal organizar um grupo de corridas só para elas?

Já as atividades manuais melhoram o foco e a concentração. Então, que tal desenvolver atividades como jardinagem, pintura, artesanato ou escultura?

E, se a empresa quer fazer com que aumente a segurança dos colaboradores a falar em público e fazer apresentações, que tal umas aulas de teatro, canto, dança ou oratória?

Quanto mais a empresa investir em ações dirigidas exclusivamente a suas colaboradoras, mais ela irá se sobressair no mundo corporativo, mais ela desenvolverá uma imagem positiva no mercado assim como a seus colaboradores, concorrentes e à sociedade como um todo, e, sem dúvida, se constituirá em um exemplo a ser seguido.

Gestores: pensem nas colaboradoras de suas empresas com mais atenção e mais carinho. Elas fazem por merecer.

Afinal elas já representam mais de 50% da força de trabalho.

Luiz Roberto Fava

Autor: Autor: Luiz Roberto Fava

Especialista em Endodontia, palestrante de Qualidade de Vida Integral.

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Últimos Comentários

  1. Neuza

    Fava

    Parabéns pelo texto, acrescento uma sugestão de apoio terapêutico nesta lista,com tanta sobrecarga de obrigações, muitas vezes as mulheres não consegue falar de suas frustrações. Seria ótimo que as empresas tivessem esse olhar. Não é frescura!!!
    Abraços

  2. Luiz Roberto Fava

    Cara Neusa,
    Obrigado pelo seu comentário.
    Quem sabe, no futuro, o “apoio psicológico” faça parte da lista de benefícios aos colaboradores.
    Tenho a certeza de que, se as empresas começarem a atuar junto aos funcionários, de uma forma holística, isto será uma realidade.
    Abraços,
    Fava

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